• Andréa Catrópa

Clichês Acadêmicos - Por que a filiação a uma tradição pode ser um antídoto à indústria de novidades



Quando comecei a me interessar pela vida acadêmica, havia um ponto que me incomodava invariavelmente: a miríade de referências canônicas, "obrigatórias", que definem cada campo de estudo. Distraída de conceitos como carreira e política, perseguia um ideal universitário de pesquisa restrita à concepção de busca de respostas e de formulações de outras questões motivadas pelos problemas que o mundo nos apresenta. Pouco a pouco, fui descobrindo que tais "referências obrigatórias" delineiam disputas ideológicas, filiações, modos de se relacionar com os objetos estudados. Ou seja, na prática, fui compreendendo que apresentar um trabalho com determinado viés teórico em determinado evento ou publicação não teria uma conotação "neutra".

Lembro-me de um exemplo: eu estava em um congresso internacional e, no fórum em que eu estava inserida, havia diversos professores de universidades públicas do país. A partir de um certo momento, minhas convicções e minha forma de interpretar a crítica literária brasileira passaram a ser chamadas de "uspianas". Não houve desrespeito, talvez uma leve hostilidade. Eu representava, naquele momento, o ponto de vista do dominador. Ao mesmo tempo em que perdia a inocência sobre um lugar ideal, avesso às disputas por poder, em que eu acreditava estar inserida, achei fundamental ouvir os depoimentos desses colegas que compartilhavam as dificuldades de trabalharem em cidades menores do que São Paulo e de fazerem parte de instituições menos "tradicionais" do que a USP. De toda forma, também tentei dialogar para que minha pesquisa não fosse compreendida de maneira monolítica, comprimida por um olhar que ali só buscasse o que havia de "típico" na minha filiação teórica.

Essa história talvez contribua para explicitar meu desconforto com esse vínculo a uma origem que me parecia restringir a liberdade do pesquisador. Mas, nos últimos anos, tenho compreendido essas amarras de outra forma. Em tempos de esfacelamento de referências, os "clichês acadêmicos" têm servido, na verdade, como uma bússola. Digitar o termo "poesia concreta" ou "estética de Hegel" na busca do Google, do Academia ou mesmo em um catálogo de biblioteca nos leva a uma origem comum da qual se originam diversos caminhos. E quando encontramos um artigo de um ensaísta estrangeiro pesquisando o mesmo assunto que nós, nem sempre temos uma noção clara de sua formação. Uma das pistas para compreender como aquele pensamento se relaciona com o que estamos considerando é verificar as referências a que o autor se remete. Assim, os grandes pensadores, mesmo restritos a citações que se encaixam nessa ou aquela norma bibliográfica (Chicago, ABNT, MLA, Vancouver etc.), ganham uma nova amplitude. Quando mencionados, seus nomes funcionam como hiperlinks que, mais do que nos levar a outros textos, contribuem para solidificar em nossa memória a história do pensamento humano.

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