• Andréa Catrópa

A decadência da verdade

Atualizado: 16 de Fev de 2018


(Imagem do artista gráfico inglês Mark Culmer, conhecido como Madina)


Há alguns dias, a página de tecnologia da Uol deu destaque para a fala da irmã do Sr. Facebook em uma palestra para empresários. Randi Zuckerberg, segundo a reportagem, afirmou que:


"Um dia acordei e pensei toda feliz: 'nossa, estamos dando voz a milhões de pessoas no Facebook'. Então, no dia seguinte à eleição de Trump, acordei e pensei novamente: 'nossa, estamos dando voz a milhões de pessoas no Facebook…'"

O termo truth decay, ou decadência da verdade, vem ganhando destaque nos últimos anos. Em uma sucessão de eventos que nos atropela diariamente, temos presenciado aquilo que parece ser uma derrocada final dos valores que nos acompanharam pelo menos desde o século XIX até meados do século XX, e que começaram a arrefecer lá pelo fim da década de 1960. Era uma morte anunciada mas, ainda assim, que nos pegou desprevenidos.


Conforme explicita a fala de Randi, a multiplicação de vozes coletivamente ativas e atuantes, facilitada pelo uso da internet e pelas redes sociais, é parecida com aquela anedota sobre como enxergar um copo cujo conteúdo está pela metade. O otimista o vê meio cheio, o pessimista, meio vazio.


A desierarquização na produção e circulação de informações modificou a forma como nos relacionamos não só com as notícias, mas com os fatos em si. O consumo de produtos, a apreciação das artes, as interações humanas...pense em uma forma de contato com o mundo e observe como dificilmente ela não terá sido afetada pela "conectividade". Por exemplo, ir ao cinema não é mais prerrogativa de quem quer assistir a um filme recentemente lançado. Você se desloca até lá apenas se estiver interessado também em um passeio, ou nas comodidades que a sala oferece, já que via streaming é possível ter acesso a um catálogo quase infinito. E diverso.


Tente fazer um teste: utilize o Translate para traduzir uma palavra qualquer para outro idioma. Depois, jogue a palavra traduzida na busca do Youtube. Fiz isso uma vez com um termo japonês e, por acaso, descobri uma série de trailers de filmes lançados apenas no mercado oriental, que pude ver optando pela versão com legendas em Inglês. Assistir àqueles filmes me fez relativizar o padrão ocidental de narrativa audiovisual, que até essa experiência, eu considerava como um "formato neutro". Ou seja, de forma acidental, compreendi que meu conhecimento histórico sobre cinema era absolutamente parcial e determinado temporal e geograficamente. A relativização de uma crença ocorreu, assim, em um curto espaço de tempo, acidentalmente. É assim que, dia a dia, temos que nos reorganizar a partir da enxurrada de informações que chegam até nós.


A sensação de que não pisamos sobre chão sólido ao tratarmos de qualquer assunto tem suas consequências e, nos Estados Unidos, muitos atribuem a eleição de Donald Trump à manipulação de dados de eleitores por meio de espionagem de seus rastros na internet para fins de campanha, bem como à circulação de fake news (outro termo relacionado a esse estado de coisas a que estamos nos referindo). Como se aquele grupo de eleitores, embalado pela realidade paralela criada especialmente para ele, não tivesse manifestado um desejo de ver além do que lhe era oferecido entre um post e outro.


Recentemente, a agência de pesquisa RAND investigou a diminuição, por parte do público estadunidense, do interesse por elementos factuais e analíticos. E considerou isso uma ameaça à formulação de políticas públicas baseadas em evidências. Só como divagação, é curioso pensar em como a ciência, por meio de seus braços tecnológicos, abraça quase todos os cantos do mundo, ao mesmo tempo em que o "método científico", comprovado empiricamente, perde seu prestígio.


De toda forma, nesse estudo, a RAND identifica quatro principais tendências relacionadas à "decadência da verdade":

  • crescente divergência entre fatos e suas interpretações analíticas;

  • apagamento das fronteiras entre opinião e fato;

  • aumento da influência da opinião e da experiência pessoal sobre o fato;

  • declínio de confiança nas fontes de informação anteriormente respeitadas.

Já entre seus fatores desencadeadores, a pesquisa identificou:

  • alteração de padrões cognitivos;

  • a ascensão das mídias digitais, entre outras alterações no contexto da informação;

  • limites no campo da educação para preparar os estudantes para acompanhar as mudanças no ecossistema informativo;

  • polarização política e social.

Voltando à anedota do copo, talvez estejamos vivendo uma fase dúbia, em que o mais acertado seja aceitar que ele está potencialmente cheio e vazio. Cabe a nós aprendermos a lidar de forma mais responsável com nossas possibilidades de engajamento na construção de um futuro melhor. E isso passa pelo tipo de conteúdo que impulsionamos e comentamos. Também. Mas não só. Talvez, seguindo a dica de Randi Zuckeberg, apenas nos desconectando um pouco consigamos olhar para o que está ao nosso redor de maneira simpática, vulnerável e humana. E decidir o que realmente queremos para nós e para os outros, já que pessoas de carne e osso têm necessidades e problemas bem mais complexos do que nossos avatares.


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