• Andréa Catrópa

Por que se desplugar da Netflix e ler um livro?


(Na foto, plaquete do projeto Vozes e Versos, organizado por Tarso de Melo e Heitor Ferraz; e livro Do amor - o dia em que Rimbaud decidiu vender armas, de Ana Rüsche. Ambos publicados pela Quelônio.)


O que define as particularidades do que é literatura é um assunto sobre o qual já se debruçaram escritores e acadêmicos. Obviamente as respostas são variadas e nos contam mais daquele que formula a resposta do que do seu objeto de reflexão. Saber o que é um bom livro ou uma leitura que valha a pena é um processo complexo. Portanto, apenas com a motivação humilde de uma cronista, elaboro minha resposta à pergunta do título.

Aparentemente um traço do contemporâneo é que quase todo mundo quer ser um sucesso. Rapidamente, sem as dores e percalços que significam, por fim, ter uma experiência. No entanto, o percurso mais ou menos pedregoso que enfrentamos traz também ganhos. Talvez esse pressuposto simples, esse clichê, seja o que movimentou boa parte da grande literatura moderna. Nós, humanos, líamos as palavras de um outro humano, que resumiam (ou expandiam) seu saber especificamente literário por meio de vivências reais ou imaginárias. Ao lado do artifício, da perfeição artística, buscávamos a imperfeição humana.

O que nos contam, por fim, autores tão distintos quanto Rousseau e Lispector, Dostoiévski e Plath, Flaubert e Drummond, Wolf e Cesar? Que sob a superfície mecânica das relações sociais e vida cotidiana, existem desejos que jamais serão satisfeitos. Sonhos impossíveis, pensamentos mesquinhos, heroísmos interditados - tudo isso alimentou a literatura moderna, ao lado da pesquisa formal e dos embates teóricos.

A discórdia sobre o quanto de suor e o quanto de inspiração são necessários para produzir um bom texto já foi encarada como um índice de busca de objetividade por alguns autores, uma recusa do subjetivismo excessivo do Romantismo. Mas, convenhamos, a fisiologia do suor não o descola da contingência humana - sua quem se esforça, quem se debate fisicamente para atingir seu fim com algum esforço.

Creio que, atualmente, passamos dessa fase. Nem devaneios, nem sofrimento físico. Um autor contemporâneo precisa de cálculos, fórmulas. Ele não escreve para si ou para seus amigos. Escreve para o Público (isso, com "p" maiúsculo). Escreve para ser bem sucedido, para ter chance de ser publicado por esta ou aquela editora, para concorrer a prêmios. Isso não deixa sobrar nenhum espaço para a Experiência (para rivalizar com o Público, também escrevo com maiúscula).

Daí, particularmente, penso que para ler um livro feito para agradar, asséptico e anêmico de vida, repleto de técnica assimilada de forma acrítica, melhor continuar ligado na Netflix ou no Popcorn ou no Youtube (sim, há bons filmes legendados por lá. Recentemente assisti ao Jovem Marx dessa forma). O audiovisual é mais envolvente, mais sensorial e, francamente, mais divertido. Além disso, não podemos negar a qualidade artística de muitos dos seriados que - ao lado dos filmes - conquistaram um importante espaço na vida cultural contemporânea. Aliás, o velho Aristóteles, em sua reflexão sobre os gêneros lírico, épico e dramático, alertava como este último tem um apelo especial, por fazer com que a ação ocorra diante dos olhos do espectador, e se presentifique na ação dos atores. Isso fez com que Hegel ponderasse, na Estética, que o Drama seria uma síntese dos outros gêneros, emancipando as personagens do narrador e dotando-as de extrema intensidade subjetiva.

Trocando em miúdos, a literatura (com suas transformações a partir da Épica e da Lírica clássicas) resta para nós como uma forma mais mediada, menos imediata, entre eu e outro, entre dentro e fora. Podemos nos deixar levar por um filme que está passando na TV, mas precisamos ativamente querer ler um texto para que isso, de fato, aconteça.

E por que, de fato, poderíamos querer nos dar a esse trabalho? Se o audiovisual nos permite um entretenimento e uma reflexão que dependem, normalmente, de menos esforço, qual a sedução de um texto literário?

Arrisco que o encontro íntimo, secreto e absolutamente voluntário com uma alteridade é o que move o leitor. Como está escrito aquele texto, a capa do livro, a textura do papel (ou o brilho da tela) influenciam nossa percepção daquelas palavras específicas. Mas é algo além disso o que buscamos - é a relação silenciosa com a imaginação e também com o pensamento encadeado de forma inédita, desconhecida. Mas que ressoa apenas dentro de cada um. E foi transmitido por outra pessoa.

Quando lemos, somos; afirmamos nossa existência que, vivida intensamente, pressupõe também o respeito à alteridade que se transmite para nós articulando um alfabeto comum. E preservando lindamente nosso direito à escolha do quê, onde e quando queremos ler.

Essas reflexões foram facilitadas pela leitura dos volumes que estão na foto e pelo encontro com os amigos envolvidos em tais aventuras literárias no último final de semana. Abaixo, um trecho da página 23 do livro de Ana Rüsche e um poema do Paulo Ferraz que está na página 17 da plaquete Vozes e Versos:






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